ULYSSES
CARRARO - Dezembro 2004
Diretor Geral da Artesp - Agência Reguladora
do Estado de São Paulo, responsável,
dentre outras atribuições pela fiscalização
das concessões de rodovias e do setor de transporte
de passageiros, concedeu entrevista para o www.estradas.com.br,
em que informa o estágio do novo "Plano
Diretor de Transportes" que irá transformar
o sistema de transporte de passageiros no Estado de
São Paulo, fala sobre concessão de rodovias
e novas medidas para preservar a segurança
dos passageiros de ônibus.
Veja os principais tópicos
da entrevista:
PLANO DIRETOR DE TRANSPORTES

Segundo esclareceu Carraro, o sistema de transporte
rodoviário de passageiros historicamente foi
realizado através de permissão de uso.
Com o advento da Constituição de 1988
e a Lei de Concessões de 1995, concebida principalmente
para o setor energético e, que não era
adequada para o transporte público, começaram
a ser realizadas licitações.
Na concepção do novo sistema de transportes
paulista, o Governo do Estado de São Paulo
entendeu que não era o caso de renovar as permissões
de linhas, que estão vencidas, mas criar novo
sistema.
- Mantivemos a operação, o controle,
continuamos fiscalizando, cobrando as taxas, controlando
o sistema, esclarece Carraro.
Enquanto isso, um novo Plano Diretor estava sendo
elaborado, com uma metrópole nacional (São
Paulo), duas regionais (Santos e Campinas), 12 capitais
regionais e 33 centros sub-regionais. Um dos objetivos
é racionalização espacial da
oferta, reduzindo o número de linhas de 1.157
atualmente para 923. A grande redução
será no número de linhas rodoviárias,
que passarão de 740 para 516. A redução
de linhas e a operação mais racional
permitirá oferecer serviço melhor, aumentará
a produtividade das empresas, reduzirá custos
de operação e permitirá garantir
maior rentabilidade ao setor de transporte de passageiros.
- Em termos de Engenharia de Transportes, está
pronto. Estamos acertando detalhes legais para fazer
a licitação, já encaminhamos
para a Secretaria de Transportes que deve se pronunciar
em breve. Assim que tivermos uma autorização
vamos partir para licitação.
Carraro lembra ainda que o sistema regular vem enfrentando
algumas dificuldades e que estas estão sendo
levadas em consideração:
- É necessário esclarecer que o sistema
regular, as empresas formais que estão trabalhando
prestam um serviço de razoável para
bom. Por outro lado não temos concedido aumentos
anuais. Estamos dando a cada dois anos, espremendo
a margem. Isso está criando alguns problemas.
Estamos tentando elevar a tarifa para que fique mais
próxima do poder aquisitivo.
O diretor geral da Artesp lembra que os custos das
empresas aumentaram, mas o poder aquisitivo da sociedade
não.
- Os custos de transporte descolaram da capacidade
de pagamento da sociedade.
Os custos de transporte aumentaram. Diesel, aço,
pneumáticos, o preço de carroceria,
do chassi, aumentou absurdamente Por outro lado não
podemos dar tarifa porque a demanda não está
crescendo nem o salário. O cidadão não
tem como pagar. O Plano Diretor poderá contribuir
para racionalizar a operação das empresas.
- Dentro do estado temos uma dificuldade maior que
o aproveitamento dos veículos não é
o ideal. Não temos apenas linhas longas, como
na maioria das viagens interestaduais. Quando você
pega uma linha de São Paulo para Presidente
Prudente ou até Ribeirão Preto, você
vem no ônibus pela manhã e retorna à
tarde, mas não consegue fazer uma terceira
viagem. Ao passo que quando opera uma linha interestadual,
que sai de São Paulo e vai para Londrina, sai
de manhã e volta no fim do dia. No final do
ano, um ônibus dentro do estado, roda no máximo
100.000km por ano, enquanto um ônibus federal
roda pelo menos 130.000 km/ano. Então o custo
é quase o mesmo, mas a rentabilidade das linhas
longas melhor.
O ônibus da linha de Presidente Prudente, por
exemplo, vai para a garagem, lava, passa por inspeção
faz manutenção preventiva normal. O
veículo vai para a rodoviária e vem
para São Paulo. Chega em São Paulo,
vai para a garagem, faz o mesmo processo e volta para
a rodoviária e Presidente Prudente. Na linha
Campinas - São Paulo faz a mesma coisa em cada
viagem com menos de 100km. Então esse tempo
parado é muito grande e isso encarece os custos.
Segundo Carraro, outro problema são os custos
dos terminais, que fazem muitas pessoas que viajam
freqüentemente em linhas curtas a ficarem fora
da rodoviária, em local onde sabem que o ônibus
vai passar, esperando na rodovia para não pagar
a taxa de embarque. Para quem viaja eventualmente
o valor não pesa, mas para viajantes freqüentes
faz muita diferença no fim do mês. Num
estado como São Paulo em que 80% da demanda
está em linhas até 200km e muitas pessoas
viajam diariamente para trabalhar em cidades maiores,
o valor da taxa de embarque afeta muito o usuário,
a segurança e as empresas.
- Quando você faz uma viagem longa, com tarifa
de R$ 100,00 e paga taxa de R$ 2,00 num terminal esse
valor não pesa. Quando está pagando
R$10,00 de tarifa e R$2,00 de taxa de embarque, a
taxa de embarque representa 20% do valor da passagem.
Isso está causando uma movimentação
de passageiros que vão pegar o ônibus
fora da rodoviária para fugir da taxa, o que
atrapalha o desempenho porque você perde tempo
e compromete a segurança.
Na avaliação de Carraro o ideal seria
construir terminais rodoviários nas rodovias,
principalmente operar com salas de embarque em pontos
de paradas homologadas.
- Acho muito mais prático do que no miolo
das cidades. Onde ônibus urbanos levariam o
passageiro aos locais de seu interesse. Seria um ponto
de transferência, uma estação
de parada. Marília fez recentemente a rodoviária
num entroncamento de rodovias. Em algumas cidades,
dependendo de onde vem o passageiro, ele é
obrigado a andar mais, mas em geral não. Entretanto,
também não precisa entrar na cidade
porque a rodoviária está na rodovia.
Até para estacionamento é muito mais
fácil.
No interior estamos pedindo que os terminais sejam
transferidos para a Artesp, no lugar do DER que não
trabalha mais com transportes.
Carraro lembrou ainda que em grandes cidades como
São Paulo, a zona de emprego está se
deslocando e que por isso a localização
dos terminais também precisa ser repensada.
- O cidadão que vem todo dia de Campinas e
trabalha na região da Lapa não vai até
o Tietê, pegar um ônibus e voltar. Ele
vai pedir para descer, depois vai a pé, pega
outro ônibus, mas em hipótese alguma
o passageiro de curta distância faz percurso
negativo. Quando o terminal do Tietê foi concebido,
por exemplo, ele seria ligado às linhas do
metrô que não cresceram na velocidade
desejada. De modo geral, os empregos gerados não
estão mais próximos do terminal do Tietê.
A zona de emprego se deslocou para a Paulista, Faria
Lima e Santo Amaro. É preciso reformular o
sistema. A Secretaria Metropolitana já está
trabalhando para rever os terminais de São
Paulo.
Sobre a Portaria 21 que aprova as Especificações
Técnicas de Veículos Automotores de
Transporte Coletivo de Passageiros Rodoviário
e Urbano Intermunicipal.
Com a publicação da portaria 21, o
Estado de São Paulo criou especificações
técnicas que servirão de referência
para todos os estados brasileiros, na determinação
de como deve ser um ônibus que atende com segurança
e conforto o transporte rodoviário de passageiros.
- Nós usávamos uma portaria do DNER,
que é muito antiga. Discutimos por quatro anos,
com a Anfavea, fabricantes de carrocerias, de veículos
para elaborar esta portaria. Não está
avançada tanto quanto queríamos, mas
é o que foi possível ser feito.
Na realidade, a leitura da portaria demonstra o grau
de detalhamento técnico a que chegou a Artesp,
com determinações que demonstram a importância
atribuída à segurança e conforto
do passageiro. O motor dianteiro ficou restrito há
algumas linhas.
Está previsto o uso freio ABS, que reduz o
espaço necessário para frenagem, o retarder,
equipamento que permite maior segurança em
linhas de serra, pois atua na redução
da velocidade sem afetar o sistema de freios e sem
fricção. A utilização
de GPS para acompanhar os serviços oferecidos
pela empresa e garantir maior segurança aos
usuários.
Alterações na largura das poltronas,
espaço para as pernas dos passageiros, saídas
de emergência, enfim, uma variedade de itens
que tornam a portaria um verdadeiro manual para outras
agências reguladoras e governos. Naturalmente
que a implantação desses itens nos ônibus
seguirá um cronograma para não comprometer
a saúde financeira das empresas.
A eficiência de alguns itens é explicada
por Carraro.
- Nós temos teste de veículos com mais
de 600.000km com retarder, em que não foi trocada
a lona de freio. O equipamento será obrigatório
em qualquer região serrana.
Mas quando colocamos abs, retarder, ar condicionado,
o veículo está aumentando de preço,
isso reflete na tarifa. Fomos até o limite.
A segurança foi prioridade e para garantir
o conforto fomos até o limite que a tarifa
permite trabalhar. Introduzimos poltronas mais largas,
as pessoas cresceram, uma pessoa de estatura maior
fica encostando-se ao passageiro do lado. Foi considerada
a espessura das poltronas, para garantir espaço
para as pernas dos passageiros. Introduzimos nos ônibus
urbanos a poltrona estofada. Para não fugir
da legislação que estipula largura máxima
para o veículo, fomos obrigados a sacrificar
um pouco o corredor que não é lugar
para a pessoa ficar circulando. É para entrar
e sair.
E na hora do acidente ninguém sai em pânico
pelo corredor, sai pelas janelas de emergência.
A janela de emergência também foi analisada,
o importante é a dureza do martelinho que quebra
o vidro e a martelada deve ser no canto e não
no meio da janela.
Determinamos uma lona para evitar que pessoas se
cortem.
Vamos reduzir o número de passageiros em pé.Temos
ônibus urbano entrando em rodovia e passageiro
em pé não é para ser condição
habitual mas exceção. O ideal é
todos irem sentados.
Ciente do problema da fadiga dos motoristas e do
excesso de velocidade praticado por algumas empresas
e motoristas, a ARTESP está tomando providências,
conforme o diretor geral explica:
-Estamos tentando contratar um estudo sobre tempo
de duração da viagem. Queremos fazer
um estudo para definir até que distância
você pode ir ou não.
Nós temos um caso que é Araraquara e
Ribeirão Preto que com a abertura da nova Bandeirantes,
eu não tenho nenhum posto de serviço
naquele trecho.
Estão sendo construídos dois postos
agora. Tão logo eles estejam prontos vamos
obrigar o pessoal a parar ali.
Usando o prolongamento da Bandeirantes os pontos
de parada homologados estavam ou muito próximos
de Ribeirão e Araraquara ou de São Paulo.
Foi autorizado, em caráter precário,
as linhas de Araraquara e Ribeirão fazerem
viagem expressa.
Nas demais linhas há paradas obrigatórias.
Estamos introduzindo nos veículos GPS, mais
micro de bordo. Temos tacógrafo e um software
que permite digitalização das informações
e fica mais fácil fiscalizar. Estamos acompanhando
a velocidade dos veículos.
A preocupação com o excesso de velocidade
é destacada por Carraro.
- Pegamos motorista de ônibus suburbano a 125km/h.
fazendo média de 85km/h.
Nós trabalhamos no máximo com média
de 60km/h na rodovia e 30km/h dentro da cidade.
É com isso que fazemos as tabelas de horário.
A média que não pode exceder 60km/h.
Estamos contratando empresas de apoio para controlar
horário de chegada e saída no terminal
e nas paradas intermediárias.
E com o GPS nós teremos condições
de auditar as empresas de uma forma melhor.
O que os empresários ainda não entenderam
que não é apenas para nós fiscalizarmos
mas para que eles possam planejar melhor. Muitas vezes
o proprietário não sabe o que a empresa
está fazendo. No caso de um acidente vou poder
puxar histórico de um ano do motorista.
E atuar em cima de empresa de uma forma mais eficiente,
isso vai estar documentado. Mostrar que o motorista
vinha apresentando uma tendência de aumentar
a velocidade. O acidente nunca ocorre sozinho, vem
acompanhado de vários sinais.
As condições psicológicas e
de saúde do motorista também preocupam
a Artesp, conforme revela o diretor geral da Agência.
- No caso de um acidente é preciso chegar
na seção de tráfego e perguntar
como é que esse motorista saiu daqui hoje de
manhã. Discutiu com alguém, está
com algum problema. Estamos, simultaneamente aos equipamentos
eletrônicos, estabelecendo um plano de qualidade,
pedindo para as empresas participarem do Prêmio
ANTP de Qualidade, do Programa Nacional de Qualidade
e ISO 9000. Queremos que exista um plano exclusivo
para os motoristas. Separando quem está com
problema na família, alguém doente.
O motorista estará dirigindo um equipamento
de R$ 400.000,00 e na média 25 vidas a bordo.
Por isso o programa deve verificar a saúde,
sono, acuidade visual e auditiva, ter nutricionista,
acompanhamento psicológico. O problema é
aquela pecinha que vai atrás do volante. Não
tem sono adequado, não dorme direito.Come muito
e depois dirige. As vezes fica com fome e está
dirigindo.
Embora a Artesp reconheça a importância
da educação dos motoristas e empresas
nos programas de segurança, Carraro alerta
que a punição faz parte do processo.
- Não há programa de segurança
sem componente da educação e punição.
Onde o cidadão mais sente é o bolso.
É assim em todo o mundo. Por exemplo, colocamos
radares fixos nas rodovias, os motoristas já
aprenderam onde estão. Fomos obrigados a colocar
radares móveis.
Sobre o irrisório valor das multas previstas
para empresas de ônibus que não respeitem
as normas, que começam em torno de R$ 11,00.
Carraro informou que já enviou texto de lei
para a Assembléia, pedindo alteração
do valor de referência para UFESP, o que elevarias
as multas mais baixas para R$ 220,00 aproximadamente.
Valores ainda bem inferiores aos aplicados pela Agência
Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), responsável
pela concessão e fiscalização
de linhas interestaduais e internacionais.
Para os passageiros de ônibus, saiu recentemente
a Portaria 20 que dispõe sobre os procedimentos
a serem adotados pelas Empresas Operadoras do Sistema
de Transporte Coletivo Regular e de Fretamento, visando
esclarecer os passageiros sobre as condições
de segurança e de viagem, Carraro lamentou
que os passageiros não tenham o hábito
de usar cinto e resistam.
- Alguém precisa explicar isso para ele. Estamos
saindo com a primeira cartilha do usuário de
ônibus. Não é a ideal, mas é
o possível. Em primeiro lugar para dizer para
o usuário de ônibus que a Artesp existe
e está do seu lado.Temos 0800, endereço
eletrônico, ouvidoria. Colocamos os direitos
dele.
Sobre estimular os passageiros e motoristas de automóvel
a viajarem de ônibus, o diretor da Artesp afirmou
que é preciso fazer campanhas.
- Os empresários de ônibus não
têm essa percepção. Eles estão
muito preocupados em pegar o passageiro do vizinho
e não em buscar outros mercados. Nunca vi eles
brigarem para pegar o passageiro de automóvel.
Precisam fazer alguma campanha para estimular o uso
de ônibus. Adoraria ver um herói ou heroína
numa novela saindo de um ônibus dizendo: Puxa!
Viajei confortável, não precisei dirigir!
Quanto às concessões de rodovias, Carraro
é otimista:
- Existia uma queixa no início contra o pedágio.
Está claro que o Estado não tem capacidade
de financiamento para infra-estrutura. O programa
de concessões é excelente, pois permite
fazer a infra-estrutura. Você tem mecanismos
de disparo dentro do contrato que prevê ampliação
fundamental em qualquer concessão, a partir
de determinado número de veículos trafegando.
Na rodovia dos Bandeirantes estamos fazendo a quarta
faixa.
O programa de concessões gerou investimentos
em novas obras de R$ 5,4 bilhões, nos seis
anos do programa paulista, mais conservação
e operação são R$ 12 bilhões
que o Estado deixou de gastar.Até a pessoa
que não tem carro, nunca passou naquela rodovia,
não precisou pagar impostos para mantê-la
em ótimas condições. A cada viagem
vejo um novo empreendimento, é mais emprego,
desenvolvimento.
As rodovias estão sempre condição
de nova. Com instalação de painéis
eletrônicos, pintura lima-limão que reflete
melhor na neblina, sistema de monitoramento por câmera.
Hoje estamos conseguindo chegar num acidente abaixo
de 10 minutos.
Há um estudo inglês que diz que chegando
com menos de 13 minutos aumenta em 30% a chance de
sobrevida do acidentado.
Estão sendo construídas passarelas,
barreiras, acústicas, feito reflorestamento,
recompondo bosques, definindo faixa de domínio
com cercas e muros.
Carraro admitiu que as próximas rodovias a
serem concedidas tendem a ser as que já têm
cobrança de pedágio como a Ayrton Senna,
Carvalho Pinto, D. Pedro I, embora enfatize que o
governo ainda não definiu isso.
Maiores informações sobre a ARTESP,
bem como as portarias mencionadas, visite o www.artesp.sp.gov.br
Veja entrevista anterior
ULYSSES CARRARO - Novembro de 2003 - quando Diretor
de Procedimentos e Logística da Artesp.